A Copa da apatia

 

Tem causado espanto o descaso dos brasileiros com a Mundial de futebol e com a Seleção brasileira.

A falta de empolgação se revela nos pouquíssimos estouros de fogos por ocasião dos gols, na falta de bandeiras nas casas e nos veículos e na indiferença de pessoas entrevistadas, cuja apatia supera os 70%.

Os fatos que conduzem a essa indiferença são muitos, mas pretendo começar pelo seu aspecto positivo. Antes de tudo é preciso compreender que a vitória ou a derrota da seleção da brasileira não tem o potencial de mudar em nada a vida das pessoas, se não um breve momento de tristeza ou de alegria. Chegar a essa conclusão leva tempo, e faz parte da autoconsciência de um povo.

Aliadas a essa constatação de relevância filosófica e política, juntam-se outros ingredientes mais óbvios, como jogadores que já não possuem nenhuma ligação afetiva com o Brasil; meninos malcriados que se consideram patrões e desprezam o torcedor que paga para eles correrem; uma administração bastante suspeita de dirigentes de uma instituição privada que se comportam com as mesmas demências dos setores públicos.

Para a próxima copa ajuntam-se o mau comportamento e péssimos exemplos de torcedores, que, valendo-se do “anonimato” em terras estrangeiras e da incompreensão da língua, aproveitam para exprimir a raiz da violência e do desrespeito que tanto vemos espalhados por aqui.

Entretanto, podemos ver que não se trata de pessoas de condições econômicas desfavoráveis, mas, sim daqueles que podem desembolsar uma ótima quantia para o deslocamento até o norte do mundo; o que nos revela que a violência pode estar mais entranhada e disseminada entre nós do que pensamos e consideramos normalmente.

Com tudo isso é possível prever que no futuro próximo estes tipos de distrações se tornarão cada menos capazes de alterar o humor da população. E, se o ceticismo é algo pelo que todo povo deve passar antes de chegar à consciência de si, ousamos esperar que em breve ele também chegue na política, engendrando a compreensão que nenhum político pode resolver os problemas, mas tão somente a cobrança de um povo unido a qualquer um que seja eleito.

O ceticismo prático é, pois, o fim de uma crença que algo experimentado repetidas vezes pode não dar certo, e não porque fizemos errado, mas é a própria coisa que está errada, e carece de ser feita diferente. Nesse sentido o ceticismo com o mundial de futebol pode ter colocado nos trilhos o modo correto de torcer.

 

Prof. Dr. Lindomar Rocha Mota

Diretor

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